Marés e correntes de maré: do fenômeno ao cálculo que cai na prova
10 de agosto de 2026 · 11 min de leitura
A maré decide, duas vezes por dia na maior parte da costa, quanta água existe entre a quilha e o fundo. Para quem se prepara para uma seleção de praticagem, ela é mais que paisagem: é conteúdo cobrado com precisão de definição e de cálculo. Este artigo percorre o fenômeno, os planos de referência e as publicações oficiais que transformam a maré em número utilizável no passadiço.
O caminho segue a ordem do estudo sério: primeiro a física que explica o sobe e desce, depois a convenção que ancora as sondagens da carta, em seguida as Tábuas das Marés da DHN e as correntes que a maré gera. No fim, o recorte de prova: onde o tema se encaixa no conteúdo programático e que tipo de questão ele costuma alimentar.
Por que o mar sobe e desce: o fenômeno da maré
Maré é a oscilação vertical, periódica e previsível do nível do mar, causada principalmente pela atração gravitacional da Lua e do Sol sobre as massas d’água. O que gera o efeito não é a atração em si, mas a diferença de atração entre pontos distintos do planeta: o lado voltado para a Lua é puxado com mais força que o centro da Terra, e o lado oposto, com menos. Dessa diferença nascem dois bojos de água aproximadamente opostos, sob os quais a Terra gira.
A Lua domina o fenômeno por estar muito mais perto; o Sol, embora imensamente maior, responde por menos da metade da contribuição lunar. Como o dia lunar dura cerca de 24 horas e 50 minutos, o padrão se desloca um pouco a cada dia — e, no regime semidiurno, predominante na costa brasileira, ocorrem duas preamares e duas baixa-mares por dia lunar, com preamares sucessivas separadas por cerca de 12 horas e 25 minutos.
Preamar é o nível máximo atingido num ciclo; baixa-mar, o mínimo. A distância vertical entre uma baixa-mar e a preamar consecutiva é a amplitude da maré — o número que resume quanto a água sobe naquele ciclo. Perto da preamar e da baixa-mar o nível varia devagar; no meio do ciclo, a variação é mais rápida, detalhe que pesa em qualquer cálculo de janela.
A consequência prática é direta: a profundidade disponível muda ao longo do dia, e com ela a folga abaixo da quilha. Em acessos restritos por calado, a maré define a janela de maré — o intervalo em que o navio pode passar com a folga mínima exigida. Essa folga ainda é consumida em movimento pelo efeito squat, o que torna o par maré-squat presença constante no planejamento de entrada e saída de porto.
Sizígia e quadratura: quando a maré cresce e quando amansa
As amplitudes não são iguais todos os dias porque a geometria Sol-Terra-Lua muda ao longo do mês lunar. Na sizígia — Lua nova e Lua cheia —, Sol e Lua atuam alinhados com a Terra e seus efeitos se somam: preamares mais altas, baixa-mares mais baixas, amplitudes maiores. São as chamadas marés de águas vivas.
Na quadratura — quarto crescente e quarto minguante —, os dois astros formam ângulo próximo de 90° em relação à Terra e um efeito atenua o outro: amplitudes menores, as marés de águas mortas. Entre um estado e outro a transição é gradual, e as próprias Tábuas das Marés deixam o padrão visível, crescendo e amansando ao longo das semanas.
| Configuração | Fase da Lua | Geometria Sol-Terra-Lua | Efeito prático |
|---|---|---|---|
| Sizígia (águas vivas) | Nova e cheia | Astros alinhados; efeitos se somam | Amplitudes maiores e correntes de maré mais intensas |
| Quadratura (águas mortas) | Quarto crescente e minguante | Ângulo próximo de 90°; efeitos se atenuam | Amplitudes menores e correntes mais fracas |
A implicação prática aparece no calado: é na preamar de sizígia que um acesso oferece sua coluna d’água máxima, e é nela que se programam as passagens dos navios de maior calado. A contrapartida vem junto — na sizígia as correntes de maré também são mais intensas, e a manobra ganha um fator a mais para administrar.
Planos de referência: o nível de redução da carta
Toda sondagem impressa numa carta náutica é medida a partir de um plano convencional chamado nível de redução (NR). Na costa brasileira, a DHN adota como NR um plano próximo da média das baixa-mares de sizígia — uma referência deliberadamente baixa, para que, na maior parte do tempo, exista mais água do que a carta mostra. Ler a carta começa por saber a que plano suas profundidades se referem, ponto que se conecta diretamente à simbologia das cartas náuticas.
A altura da maré é a cota do nível do mar acima do NR num instante dado — e as alturas previstas nas Tábuas das Marés são contadas a partir desse mesmo plano. Por isso a conta fundamental da maré é uma soma: a profundidade num instante é a sondagem da carta mais a altura da maré naquele instante. O sistema inteiro — carta, Tábuas e cálculo — só funciona porque os documentos compartilham a mesma origem vertical.
Três cuidados evitam a maior parte dos erros de estima de maré:
- A previsão é astronômica: vento persistente e variações de pressão deslocam o nível real para cima ou para baixo do previsto — a chamada maré meteorológica.
- Alturas negativas existem: quando o nível cai abaixo do NR, a profundidade do momento fica menor que a sondagem impressa na carta.
- A predição vale para a estação de referência: em pontos afastados dela, horários e alturas mudam, e a transposição exige critério, não palpite.
Tábuas das Marés da DHN: como usar sem errar
As Tábuas das Marés são a publicação oficial de previsões de maré para a costa do Brasil: para cada porto ou estação listada, trazem dia a dia os horários e as alturas das preamares e baixa-mares. As previsões nascem de constantes harmônicas obtidas de séries de observações maregráficas do próprio local — cada estação tem sua própria série, e não se transfere previsão de um porto para outro por semelhança geográfica.
O erro clássico é ler apenas a linha da preamar e da baixa-mar. A navegação real acontece em horários intermediários, e a altura nesses instantes se calcula por interpolação — admitindo que o nível varia de forma aproximadamente senoidal entre baixa-mar e preamar, não em linha reta. O problema inverso, achar a que horas a maré atinge determinada altura, é o mesmo cálculo no outro sentido; o método, com exemplos resolvidos, está nas instruções das próprias Tábuas e em Miguens, vol. I, cap. 10.
O regime e a amplitude variam sensivelmente ao longo da costa — há trechos de marés amplas e trechos em que a oscilação astronômica é modesta —, e a caracterização trecho a trecho consta da própria publicação e da obra de Miguens. As previsões oficiais do ano em curso estão disponíveis no sítio do Centro de Hidrografia da Marinha, órgão que produz e mantém as publicações de segurança da navegação.
Correntes de maré: enchente, vazante e estofa
A oscilação vertical do nível vem acompanhada de um movimento horizontal periódico das águas: a corrente de maré. Quando a maré sobe e a água flui para dentro do estuário, canal ou porto, a corrente é de enchente; quando o nível desce e o fluxo se inverte, é de vazante. Em canais e rios a corrente é tipicamente alternada, invertendo o sentido a cada ciclo; ao largo, pode mudar de direção continuamente ao longo do ciclo.
Entre a enchente e a vazante existe a estofa de maré: o intervalo em que a corrente praticamente cessa antes de inverter. A estofa não coincide necessariamente com o instante exato da preamar ou da baixa-mar local — a defasagem entre nível e corrente depende da geometria de cada estuário, e assumir coincidência automática é erro conceitual clássico.
A distinção em relação às correntes oceânicas é de natureza, não de grau. Correntes oceânicas são fluxos quase permanentes, gerados principalmente pelo vento e por diferenças de densidade, com direção estável em larga escala; correntes de maré são periódicas, invertem ou giram no ritmo astronômico e dominam justamente onde a manobra acontece: barras, canais e bacias portuárias.
Para as principais áreas portuárias, a DHN publica as Cartas de Correntes de Maré, que apresentam, hora a hora, a direção e a intensidade previstas da corrente em função do instante da preamar num porto de referência. O elenco de áreas cobertas consta do Catálogo de Cartas e Publicações da DHN, e o método de uso está descrito na própria publicação e em Miguens, vol. I, cap. 10.
Na manobra, a corrente de maré é o fator que muda enquanto a faina acontece. No fundeio, o navio tende a se aproar à resultante de vento e corrente, e a inversão de enchente para vazante o faz rondar sobre o ferro — comportamento que o plano de fundeio precisa antecipar. Na atracação, corrente pelo través altera o ângulo de aproximação; em canal estreito, governar contra a corrente dá mais controle do que ser empurrado por ela.
Como o tema cai no PSCPP
No processo seletivo para praticante de prático, marés e correntes de maré integram o conteúdo de navegação do Anexo 2-A da NORMAM-311 — as Normas da Autoridade Marítima que regem o serviço de praticagem —, na revisão publicada em abril de 2026. No Anexo 2-B, a bibliografia aponta como referência de navegação a obra “Navegação: a Ciência e a Arte”, de Altineu Pires Miguens, publicada pela DHN; o tema vive no vol. I, cap. 10, dedicado a marés, correntes de maré e correntes oceânicas.
Em prova, o tema costuma assumir três formas: definição precisa — sizígia, quadratura, nível de redução, estofa —, cálculo de altura da maré em horário intermediário a partir de dados das Tábuas e interpretação prática, como escolher a janela de passagem de um navio de calado limitado. As três formas cobram o mesmo alicerce: entender o que cada número representa e a que plano de referência ele está amarrado.
Nenhuma revisão substitui a obra: use este texto como mapa e estude o método no capítulo, com as Tábuas ao lado, refazendo o cálculo completo mais de uma vez. Para situar o peso da disciplina no conjunto do certame — etapas, matérias e estratégia de preparação —, comece pelo guia completo do PSCPP.
No PHAROS, cada conceito de maré aponta para o capítulo de Miguens que o sustenta: método antes de decoreba, sempre com a página ao lado.
Perguntas frequentes
O que causa as marés?
A causa principal é a atração gravitacional da Lua e do Sol sobre as massas d’água, combinada com a dinâmica do sistema Terra-Lua. O que produz o efeito é a diferença de atração entre pontos distintos do planeta, que gera dois bojos de água aproximadamente opostos; a rotação da Terra sob esses bojos produz a alternância de preamares e baixa-mares. A Lua, por estar muito mais próxima, domina o fenômeno; a contribuição do Sol é menor que a metade da lunar, mas é a combinação dos dois que explica o ciclo de sizígias e quadraturas ao longo do mês.
O que é maré de sizígia e maré de quadratura?
Sizígia é a configuração em que Sol, Terra e Lua estão aproximadamente alinhados, na Lua nova e na Lua cheia: os efeitos dos dois astros se somam e as amplitudes são as maiores do ciclo mensal — as águas vivas. Quadratura é a configuração dos quartos crescente e minguante, com Sol e Lua em ângulo próximo de 90° em relação à Terra: um efeito atenua o outro e as amplitudes são as menores — as águas mortas. Na prática, a sizígia oferece mais água na preamar e correntes mais fortes; a quadratura, o contrário.
O que é nível de redução na carta náutica?
É o plano de referência a partir do qual são medidas as sondagens da carta e as alturas de maré previstas nas Tábuas. Na costa brasileira, a DHN adota um plano próximo da média das baixa-mares de sizígia — uma referência baixa de propósito, para que na maior parte do tempo haja mais água do que a carta indica. A profundidade num instante qualquer é a soma da sondagem com a altura da maré naquele momento; em condições excepcionais, o nível pode ficar abaixo do NR e a profundidade real ser menor que a da carta.
O que é estofa de maré?
Estofa é o intervalo em torno da inversão da corrente de maré em que o escoamento praticamente cessa: ao fim da enchente, antes de começar a vazante, e ao fim da vazante, antes da nova enchente. É a janela natural para manobras delicadas em espaço restrito, porque o navio deixa de ser empurrado pela corrente. Um cuidado conceitual: a estofa não coincide necessariamente com o instante exato da preamar ou da baixa-mar local — a defasagem entre o nível e a corrente varia com a geometria de cada estuário e consta das publicações de cada área.
Como calcular a altura da maré em um horário qualquer?
Parta das Tábuas das Marés da DHN: identifique, para a estação desejada, a baixa-mar e a preamar que cercam o horário de interesse, com seus horários e alturas. A altura no instante intermediário é obtida por interpolação, admitindo que o nível varia de forma aproximadamente senoidal — mais devagar perto da preamar e da baixa-mar, mais depressa no meio do ciclo. O método completo, com exemplos, está nas instruções das próprias Tábuas e em Miguens, vol. I, cap. 10. Lembre que o resultado é previsão astronômica: vento e pressão podem deslocar o nível real.
Fontes e bibliografia
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